“Entre fibras e raízes: o artesanato que transforma a vida de mulheres negras em Alagoas”
“Entre fibras e raízes: o artesanato que transforma a vida de mulheres negras em Alagoas”
Com a palha de taboa nas mãos e saberes ancestrais na memória, artesãs como Ana Lúcia encontram sustento, voz e poder nos brejos alagoanos.
Em meio aos brejos silenciosos de Feliz Deserto, no litoral sul de Alagoas, mãos negras costuram muito mais que fibras: costuram memórias, resistência e futuro. É o caso de Ana Lúcia, 59 anos, que há três décadas transforma a palha de taboa em bolsas, chapéus e objetos de decoração. O que começou como uma curiosidade despretensiosa tornou-se um ofício de vida — e de luta.
“Em 1994 eu estava desempregada, sem perspectiva. Aí me chamaram pra um curso de artesanato com taboa. Nem sabia o que era essa planta. Fui, aprendi, gostei e nunca mais larguei”, lembra Ana, sentada em frente à sua casa de barro batido, com uma peça em processo nas mãos calejadas.
A planta, comum em áreas alagadas, é colhida à mão, lavada, seca ao sol por dias e, só então, ganha forma nos trançados precisos. O processo é todo artesanal, feito com a própria fibra, sem uso de cola ou materiais sintéticos. “É 100% natural. Cada peça leva tempo, leva história, leva um pedaço de mim”, diz.
Sustento e identidade
Como Ana, outras dezenas de mulheres negras da região encontraram no artesanato uma forma de driblar o desemprego, preservar a cultura local e conquistar autonomia. Muitas vivem em comunidades rurais ou quilombolas, onde o acesso a oportunidades ainda é limitado.
Para a antropóloga e pesquisadora Marlene Oliveira, o trabalho dessas mulheres vai muito além do “fazer manual”: “O artesanato com a taboa é um ato político. São mulheres que resistem ao racismo estrutural, à pobreza e ao apagamento cultural, mantendo vivos saberes que vêm de suas mães, avós, bisavós.”
Do brejo ao mercado
Com o fortalecimento de feiras de economia solidária, redes de artesãs e iniciativas de turismo comunitário, os produtos de Ana e suas colegas já circulam pelo Brasil e começam a chegar ao exterior. Ainda assim, os desafios persistem: falta de apoio governamental, dificuldade de acesso a crédito e infraestrutura precária.
“Tem dia que a gente anda uma hora no brejo pra colher a palha. Tem que carregar no ombro, voltar, lavar, secar. E ainda tem gente que quer pagar barato”, desabafa Ana. Mas ela não desanima. “A gente segue. Porque o que a gente faz tem valor. É nossa história que tá ali.”
Futuro trançado à mão
Hoje, Ana ensina outras mulheres a arte da taboa. Já formou mais de 80 artesãs. Para ela, compartilhar o saber é garantir que ele não desapareça. “Quero que mais meninas aprendam. Que vejam que podem viver disso com dignidade. Que saibam que ser mulher negra e do interior não é limite, é força.”
Enquanto o sol seca mais um feixe de taboa estendido no quintal, Ana continua a costurar. Peça por peça, ela tece também um novo capítulo da história de tantas mulheres alagoanas — enraizado no barro, moldado pela resistência e bordado com orgulho.


